quinta-feira, 23 de junho de 2011

As Folhas dos Orixás (1)

As folhas dos Òrixás

ORIN EWÈ ( Cantigas de Folhas ):

A fi pa burúrú ( Nós usamos para matar complicações )
Etiponlá wa fi pá burúrú ( Erva-tostão nós usamos para matar complicações )
A fi pá burúrú ( Nós usamos para matar complicações )
Etiponalá wa fi pá burúrú ( Erva-tostão nós usamos para matar complicações )
Ita ifá ifá owó, ita omo ( Pitangueira atrai dinheiro, pitangueira atrai filho )
Etiponlá wa fi pá burúrú ( Erva-tostão nós usamos para matar complicações )



(A)
ABILZEIRO: - ÌRÓKÒ, OXUM
ABRANDA FOGO: - ÈXÙ
ABRE CAMINHO: - ÒGÚN e ÒXÓÓSÌ
ACÁCIA FUREMA: - ÒXÓÒSÍ
AGAPANTO: - ÒÒXÀÀLÀ, NANÀ, OBALUWAIYE
AGRIÃO: - ÒGÚN
AGONIADA: - OMOLU
ÁGUA DE LEVANTE: - XÀNGÓ, YEMONJA e ÒÒXÀÀLÀ
AGUAPÉ: - YEMONJA E ÒXUN
AKÓKÓ: - ÒSÓNYÌN e ÒÒXÀÀLÀ
ALAMANDA: - OMOLÚ
ALCAPARREIRA: - OXUMARÉ
ALECRIM: - ÒXÓÒSÍ
ALECRIM DO CAMPO: - ÒXÓÒSÍ e ÒSÓNYÌN
ALFACE: - EGUN
ALFAVACA: ÒXÓÒSÍ
ALFAVAQUINHA: - ÒGÚN, ÒSÓNYÌN, ÒXÓÒSÍ, YEMONJA, OYA e ÒXUN
ALFAVACA ROXA: - NÀNÁ, XÀNGÓ, OMOLÚ
ALFAZEMA DE CABOCLO: OXÓSSI, OMOLÚ
ALGODÃO: - ÒÒXÀÀLÀ
ALTÉIA: - YEMONJA, OXUMARÉ
ALUMÃ: - XÀNGÓ, OXUM,ÒGÙN, OBALUAIE
AMENDOEIRA: - ÒSÓNYÌN e ÈXÙ
AMENDOIM: - ÒSÓNYÌN
AMOR DO CAMPO: - ÒXUN
AMOREIRA: - ÈXÙ e ÈGÙN
ANGELICÓ: - XÀNGÓ, OXUMARE
ANGELIM: - ÈXÙ e NÀNÁ
ARASSÁ DA PRAIA: - YEMONJA e YEMONJA
ARASSA DE COROA: - OXÓSSI
ARASSA DO CAMPO: - OXÓSSI
ARIDAN: - ÒSÓNYÌN
ARNICA: - ÒGÚN
AROEIRA: - ÒSÓNYÌN e ÈXÙ
AROEIRA BRANCA: - XÀNGÓ
AROEIRA ROXA: - XÀNGÓ
ARREBENTA CAVALO: - ÈXÙ
ARROZINHO: - YEWÀ
ARRUDA MIÚDA: - ÈXÙ e ÒXÓÒSÍ
ASSA-PEIXE: - ÈXÙ, OBÁ, NÀNÁ, ÒXUN, OMOLÚ
AVENCA: - NÀNÁ
AZEDINHA: - XÀNGÓ, OXUM
AZEVINHO: - ÈXÙ
AVINAGUEIRA: - ÈXÙ

Continua...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

AXÉ

Boa noite irmão e amigos

Esta matéria foi me cedida por um grande irmão (filho de Airá), artista plástico que conheci em exposição de arte coletiva. Acredito que alguns podem não concordar, mas a intenção é mesmo discutir o assunto. Espero que leiam e comentem.

Axé: Essência Divina da Existência
©Miguel Ramos


Este trabalho foi apresentado primeiramente na 54tª Convenção Anual da Sociedade Católica Teológica da América para um painel de discussão intitulado "Possíveis Contribuições da Religião Afro-Cubana à Teologia Católica da Graça: Um Diálogo Inter-religioso”. 11 de Junho de 1999.
A Regla de Osha[1] é uma religião trazida a Cuba durante a época do comércio transatlântico por os escravos lukumis,[2] um grupo étnico da áfrica Ocidental, na área que hoje forma parte da República da Nigéria. Os lukumis são chamados correntemente de iorubas, um nome originalmente aplicado a um grupo lukumi em particular, o Oyó.[3] A presença lukumi em Cuba e no Novo Mundo era minoritária antes do século XVIII.[4] O incremento da presença de escravos lukumis em Cuba coincide com a eventual queda do poderoso Império de Oyó, na África Ocidental, no século XIX, resultado das sanguinárias contendas e da guerra interétnica. Um número indeterminado de prisioneiros de guerra de Oyó e de seus protetorados foi vendido como escravos e levados a Cuba e Brasil,[5] os então maiores importadores de escravos africanos no Novo Mundo.[6] Através de uma ardilosa adaptação, re-interpretação e assimilação da nova cultura e seu entorno, os lukumis preservaram a sua religião e cultura a despeito da aculturação centralizadora europeia.[7]
De extrema importância neste processo foi o conceito lukumí/ioruba de axé - a crença em que tudo está dotado da divina graça do Ser Supremo. O axé é uma força mística, geradora e todo abrangente que fortifica o sistema de crenças e serve como principal ferramenta de adaptação, garantindo o desenvolvimento e a sobrevivência da religião. A crença no axé tem permitido à religião lukumi suportar o peso da escravidão, do colonialismo e das muitas escaramuças encontradas mais recentemente na Revolução Cubana. Nos Estados Unidos, onde a religião lukumi tem abraçado e incorporado muitos povos de diferentes culturas e nacionalidades, o axé também tem demonstrado ser crítico na adaptação e sobrevivência da religião e também, um meio para a compreensão de uma visão de mundo dos povos estrangeiros, diferente da cubana e do culto aos orixás.
Axé
Os lukumis adoram um Ser Superior conhecido por Olorun—Dono dos Céus; Olodumarê-Dono das vastas expansões do universo; e às vezes Olofín—Dono do palácio celestial.[8] A tradição oral mantém que antes da criação do universo, Olorun existia somente na forma de axé, uma energia geradora da força vital. Com o tempo, o axé assumiu a consciência daquilo que chamamos de Olorun, de universo e tudo o nele tem nascido. As vastas expansões do universo incipiente reverberaram com a energia desenfreada e doadora de vida que faz com que tudo seja possível, e a existência começou a prosperar e a se propagar. Os orixás, divindades que através e com o axé assistem a Olorun nas tarefas do universo, são os primeiros seres antropomórficos que resultaram do axé. A maioria dos lukumis considera os orixás como personificações das qualidades divinas de Olorun. Este é o seu rol como mediadores entre a humanidade e o Ser Supremo.
A criação da humanidade foi delegada a Obatalá, o deus da pureza e sênior dos orixás. Obatalá, o primeiro descendente de Olorun, é o seu representante direto na Terra. Ele é o Alabalaxé, ibikeji Olodumarê— Aquele que sustenta o cetro do axé, preposto de Deus. [9] De acordo com a tradição oral, Obatalá moldou os seres humanos do barro. Um dos nomes de louvor de Obatalá é Alamoreré o escultor. Porém, somente Olorun pode dar a vida. Somente Olorun pode insuflar o emi—o hálito ou axé que dá vida, e o Eledá—a presença rigorosa e observante de Olorun nas criações de Obatalá.
Os iorubas e os lukumis acreditam que quando o universo foi criado, a cada coisa lhe foi dado o poder do axé, a energia mística da qual dependem as muitas essências de vitalidade e de existência. O axé é poder, energia geradora, força de vida. Estão presentes em todas as coisas, concretos ou abstratos. Humanos, animais, plantas, rochas, cursos d’água, colinas, savanas, arvoram o axé em vários graus, em todos os lugares e em todas as coisas. Longe de ser um Deus remoto, como amiúde é descrito na literatura, Olorun é eternamente presente e ativo, através do axé, em todos os elementos do universo. Deste modo, o axé deve ser entendido como a presença prolífica da Divindade em tudo o que há no universo. Olorun impulsiona a vida e a matéria. Como estas são “filhas” ou emanações da Divindade, ambas são produto e condutoras de axé, colocando um “pedaço” de Olorun e da sua graça em cada elemento do universo. Então, através do axé, Olorun é Onipresente, Onisciente e Onipotente, sempre atento as ações do universo, particularmente com aquelas dos seres humanos.
Em realidade, nenhuma definição é capaz de prover um cômputo satisfatório de tudo o que o axé é e encerra. Por sua própria natureza, o axé é inefável. Não obstante, Pierre Verger tem dado uma das melhores descrições de axé até a data. Aplicando as teorias de Durkheim ao conceito de axé, Verger registra:
. .os iorubas nunca viram o asé (axé), nem pretendem personificá-lo. Nem podem defini-lo por atributos e características determinadas. Ele envolve todo mistério, todo poder secreto, toda divindade. Nenhuma enumeração consegue exaurir esta idéia infinitamente complexa Não é um poder definido ou definível, é o próprio Poder no sentido absoluto, sem epíteto ou determinação de alguma espécie . . .é o princípio de tudo o que vive, age ou se move. “A vida inteira é asé”.
O historiador de arte Robert F. Thompson refere-se ao ashé como o “poder-de-fazêr-as-coisas-acontecerem. . . A própria luz proporcionada por Deus que se torna acessível ao homem e à mulher.”[10] Outros estudiosos se referem a ele como “o poder vital, a energia, a grande força de todas as coisas”;[11] força de vida[12]; força para-divina [13]; força divina, vivificante ou mística[14]; força geradora ou “potencializadora”.[15] Na maior parte, todos coincidem, basicamente, com os mesmos princípios. O axé é tudo, e muito mais, por própria natureza, o axé é existência. Sem axé, nada é possível. Não obstante, nenhuma definição lhe faz justiça, por sua própria essência o axé está além de definições e da completa compreensão humana.
A religião lukumi, como é praticada em Cuba e na Diáspora Cubana é altamente dependente do axé. Para os lukumis o axé é a raison d’etre do universo e o dote mais sagrado e reverenciado da humanidade. O axé é tudo o que foi e será: o axé é eterno. O axé é divindade, vida, existência, essência, poder, energia, vigor, força, vitalidade, causa e efeito, graça, conhecimento, autoridade, sabedoria, experiência; o axé é tudo. O mais importante é que o axé é prontamente acessível e disponível, ideal para o progresso e o bem-estar da criação de Olorun.
Ainda que sua extensão seja incomensurável, o axé como personificação do poder, da energia e da autoridade não está equitativamente distribuído. O grau de axé varia de acordo com o seu anfitrião. Esta noção é exemplificada num mito lukumi muito conhecido, e recitado na adivinhação que descreve a distribuição de axé e de conhecimento por todo o mundo. De acordo com o mito, quando a cabaça da sabedoria caiu das mãos de Ogbedí, o axé e o conhecimento foram dispersos por cada canto da Terra. Cada um e cada coisa sobre os quais ele se inclinou, obteve algum grau de axé, dependendo de quanto foi impelido para áreas particulares do cosmos. [16] Os adivinhos enfatizam que nada deve ser subestimado, desde que o seu grau de axé nunca poderá ser completamente determinado.
O axé é ao mesmo tempo universal e imortal, mas nunca estagnado ou imutável. É uma energia maleável que pode ser reinterpretada e revigorada, constantemente evoluindo e crescendo através do tempo. Os humanos são os principais beneficiários desta energia. Desde que estes prosperaram separadamente em seus meios ambientes, o axé tem sido aprendido, interpretado, entendido e aplicado em diferentes maneiras e em diferentes momentos. Os hindus o chamam de darsan; os chineses falam do Ch’i; na Polinésia foi conhecido por mana. Os seres humanos podem se encarregar desta energia e usá-la para satisfazer suas necessidades, idealmente, para o avanço material e espiritual, individual e coletivo e para o desenvolvimento do iwá— o caráter moral que ordena respeito e reverência. Uma vez em harmonia com o axé, os seres humanos passam a viver suas vidas produtiva e completamente.
Ausente da filosofia ioruba está a popularizada (ainda que não necessariamente correta teologicamente[17])) noção judaico-cristã de uma batalha entre o bem e o mal. Para os iorubas, a dualidade entre um Ser Supremo Onipotente e Sua antítese é inexistente. Olorun e axé são as causas de tudo, seja positivo ou negativo. Olorun é o Alfa e o Omega, Yin e Yang, começo e fim. Bem e/ou mal são resultados de ações humanas e não de uma batalha cosmológica entre duas entidades ou duas forças. Um provérbio lukumi utilizado na adivinhação nos lembra que: Para que haya Bueno, tiene que Haber malo — literalmente, “para que haja bom, tem que haver mau”. O axé é neutro. Ele é “ . . .nem bom nem mau, nem moral nem perverso, nem puro nem impuro, algo mais do que energia elétrica ou nuclear”.[18] O axé é simplesmente um tipo de energia irrefreável que é geradora por natureza; um poder no bruto que quando acessado pelos seres humanos é direcionado, e seu propósito é definido de acordo com a situação particular e/ou com a necessidade individual. É a ação humana, e não a energia por si mesma, o que determina onde e como o axé é usado ou mal empregado.
O iwá (caráter moral) é de extrema importância em seu relacionamento com o axé, desde que o comportamento apropriado na Terra influencia o acesso humano ao axé, tanto na vida presente quanto na ulterior. Olorun monitora a conduta de um indivíduo, durante a vida deste, através dos orixás que mantêm “registros” do comportamento humano. Outra das várias funções de Obatalá é ensinar moralidade e ordem à humanidade, servindo de exemplo a ser seguido por ela. Ele estabelece padrões muito altos de moralidade para seus seguidores e não se refreará ao punir os infratores. [19] Desenvolver o iwá reré- bom caráter moral- requer não somente devoção e respeito por Olorun, pelos orixás e os ancestres, mas também pelos companheiros seres humanos e por todas as criações de Olorun. É importante (e exigido) que o indivíduo seja um bom filho, um bom irmão, um bom pai, um bom cidadão. A pessoa que possui iwá reré deve servir de exemplo para aqueles que a rodeiam ou aos seus companheiros. Estas características são componentes integrantes e indispensáveis do iwá reré.
Contudo, à humanidade lhe foi dada liberdade de escolha. Os humanos são criaturas apaixonadas e às vezes são cegadas por suas próprias paixões. Aqueles que se desviam do caminho apropriado do iwá reré, e empregam mal o axé para maldades ou propósitos pessoais, sofrem as conseqüências de suas ações durante as suas vidas e também após a morte. Assim, ainda que o axé possa carecer de “conotações morais”, tal como alguns estudiosos têm declarado, a importância colocada em desenvolver o iwá reré adiciona dimensão moral ao uso ou desuso da energia de Olorun. [20] Finalmente, ainda, a responsabilidade repousa nas mãos do indivíduo.
Ashé humano
O axé de Olorun reside no ori, a cabeça humana, e Sua presença é conhecida por Eledá—o Criador. Juntos, funcionam como o orixá pessoal do indivíduo, uma espécie de “anjo guardião” ou atendente na vida do ser humano. O Ori também é o assento do destino humano e o maior benfeitor da humanidade. Os iorubas acreditam que certos aspectos da vida humana são pré-ordenados no nascimento. Antes do nascimento, aquele destino é escolhido ao acaso e Olorun comunica Sua bênção ao ori do indivíduo não nascido em forma de axé. No nascimento, Olorun exala axé na forma de emi—hálito e a vida começa. Esta presença dual do Criador nos seres humanos toma a forma de Eledá, a silenciosa, mas observadora testemunha da existência humana que deverá prestar contas no final.
O relacionamento entre ori e Eledá, e o grau de axé que os seres humanos podem possuir, é realçado através da iniciação no culto aos orixás. “Assentando” o orixá na cabeça do devoto, o axé recebido originalmente no nascimento é reforçado pela presença do orixá na vida do indivíduo. [21] O Ori continua a funcionar como assentamento do destino e odo orixá pessoal do indivíduo, enquanto a divindade tutelar adquiriu funções em conjunção com o ori e o Eledá na iniciação, trazendo equilíbrio, harmonia e estabilidade à existência do indivíduo. O potencial humano é aumentado, permitindo ao devoto viver uma vida cheia e próspera.
Os orixás têm a mais estreita proximidade e acesso ao axé de Olorun. Eles são a primeira prole de Olorun, emanando d’Ele através do axé. Cada orixá possui seus próprios domínios nos afazeres do universo e a maioria também esta relacionada aos fenômenos naturais, tais como oceanos, o vento, o trovão e assim sucessivamente. O axé, como manifesto nas forças da natureza, é apaziguado, cultuado e reconhecido como o inseparável elo na delicada interconexão e interdependência que existe entre os seres humanos e seus ambientes naturais. Ademais, a maioria dos orixás supervisa diferentes aspectos da vida e da existência humana, tais como o nascimento, doenças, morte, aptidões, habilidades e assim por diante. O mais importante, os orixás, assim como os seres humanos, possuem tanto defeitos quanto virtudes. Suas personalidades variam do racional ao ilógico, diferindo dos humanos somente pelo status e poderes que Olorun lhes concedeu. Este aspecto faz com que o relacionamento entre os devotos e os orixás, seja não apenas pessoal, mas também prático. Não se espera que os humanos sejam perfeitos. Se os orixás podem errar, também o podem os seres humanos. A perfeição para os iorubas e os lukumis é um domínio exclusivo de Olorun. E às vezes, até Olorun erra.
O relacionamento entre os Olorixás[22] e suas divindades tutelares é pessoal e individual. Os lukumis se consideram omó orixás—filhos das divindades. O Ori e os orixás assistem seus omó para que adquiram axé, intercedendo por sua causa com as forças do universo, assim como um pai interviria a favor de um filho. Eles proporcionam axé com e para o equilíbrio das necessidades humanas.
Os iorubas e suas contrapartes no Novo Mundo consideram a vida e o viver desejáveis. O Orun- paraíso tem seu valor, mas se lhes for dada a opção, a vida na Terra e entre seus descendentes diretos é preferida à vida no além, não importando quão gratificante possa ser o orun. A qualidade de vida é também importante, e provavelmente ainda mais importante do que a quantidade daquela é sempre a possibilidade de reencarnar e de retornar à Terra. Nenhum ioruba ou lukumi quer viver uma existência desonrosa ou insatisfatória na Terra para colher as graças no paraíso. Viver uma vida completa na Terra, rodeada pelos confortos e pelos troféus que Olorun e os orixás provêm como recompensa ao iwá apropriado, é de sumo interesse. Filhos, proteção, nutrição e boa saúde são as irês—bênçãos mais apreciadas. As prosperidades financeiras ou econômicas também são desejáveis, mas são obtidas somente como prêmios pelo bom comportamento ou pelo trabalho árduo. Neste sentido, a ideologia ioruba/lukumi está centrada no presente, no aqui e agora, e o axé é o mais importante dos meios para os fins desejados.
O axé feito tangível
O axé é ao mesmo tempo abstrato e concreto. É importante fazer uma clara distinção entre o, a energia ou força, e os materiais que os Olorixás utilizam em rituais e oferendas possuidoras desta energia, que também são chamados de axé. Ervas, frutas, raízes, animais, alimentos, pedras, solo de diferentes pontos da natureza e assim por diante, são compostos de acordo com fórmulas estabelecidas. A energia mística contida nestes elementos é materializada e sua energia animadora, dirigida a resolver as crises da vida. Esta é uma das mais importantes qualidades do axé, o fato de não apenas existir, mas também de poder ser usado, manipulado e proporcionado para fruição adicional.
Os Olorixás são alaxés-consignados a cuidar do axé e a assegurar que sua força seja reativada e revitalizada sempre que for necessário. [23] Eles contam com um amplo corpo de conhecimento ritual e místico, confirmado primeiramente pela adivinhação e que outorga acesso à energia do axé para cura, desenvolvimento e outras finalidades restauradoras. Ao cultuar um orixá, recitando orações ou cantos, preparando uma infusão de ervas, ou oferecendo um ebó (sacrifício), os devotos atuam conscienciosamente para jaezar o axé e dirigi-lo à solução de problemas e acontecimentos que apareçam na vida. Se canalizado respeitosa e apropriadamente, o axé põe o aflito em contato com a mais pura e mais sagrada das energias, o próprio Olorun.
A comunicação e o alinhamento apropriado entre o orun e o aiyê (Terra) através do axé, acentuam a beneficência do aqui e agora e também assegura ao devoto seu lugar daí em diante. Mas se o axé pessoal do indivíduo está maculado pela conduta ou ações inapropriadas na Terra, a energia Divina é afetada adversamente e os resultados desejados são desmantelados. Idealmente, o impuro ou inapropriado não podem estar em contato com a mais pura das energias.
As representações materiais do axé são veículos, através dos quais os Olorixás servem como condutores desta energia entre o orun e o aiyê, entre o profano e o sobrenatural. Toda planta, todo animal, toda raiz, um tipo particular de rocha, uma pena, água do mar ou de um rio, todas as coisas na Terra são animadas pelo axé e por isto, podem ser usadas para acarretar um resultado em particular. As possibilidades são infinitas. A combinação apropriada destes elementos e seu axé individual são convocados através de orações, invocações, cantos e outros rituais. Se combinados apropriadamente, seu axé coletivo é usado para resolver coisas tais como curar uma doença, ajudar uma mulher estéril a conceber ou, neste mundo “moderno”, garantir sucesso em um negócio arriscado ou na escolha de uma carreira.
O Olorixá deve estar muito instruído na manipulação do axé material, ou seu próprio axé perde validade diante dos olhos de seus seguidores e clientes. Tener ashé—ter axé—é uma qualidade que todo Olorixá deseja, mas nem todos nascem com ela. O axé não resulta somente do nascimento, mas também é desenvolvido e incrementado através de rituais, da conduta e da aquisição de conhecimento e experiência. Ter a irê omá—uma bênção de conhecimento, ou melhor, usá-la e obter resultados benéficos é ter axé. O conhecimento é um dos muitos domínios do axé.
O conhecimento ritual é altamente valorizado, mas também é muito guardado e não facilmente compartilhado. O conhecimento é um axé que nem todos nasceram para ter. Tal como é implícito ao mito de Ogbe’di, todos obtivemos algum nível de conhecimento, mas nem todos o adquiriram por completo. O conhecimento é colocado, dividido, disperso. La sabiduría está repartida! Até expertos em rituais como o Babalawô[24] e o Oriaté[25] não são oniscientes. Muitas vezes podem ter necessidade de consultar outros Babalawôs ou Oriatés e até Olorixás, que podem ter mais conhecimento do que eles a respeito de um orixá ou de um ritual em particular. Ainda, em algum momento da vida, o conhecimento deve ser compartilhado, pois se não for passado aos descendentes, estará perdido, resultando na perda de uma ferramenta valiosa de acesso ao axé. A maioria dos Olorixás possui um ou mais aprendizes, omó’rixás- filhos através dos orixás— de confiança, que preenchem os requerimentos que aqueles estimam necessários para a transmissão do seu conhecimento ou axé. [26]
Afudaxé - o axé na fala.
O axé é especialmente poderoso na fala. Ele é materializado através das palavras, das orações, dos cantos, dos louvores, da adivinhação e da possessão pelas divindades. Na adivinhação, os Olorixás imploram que as divindades lhes permitam entrar em contato como o seu axé pessoal para assistir adequadamente seus consulentes:
Fun mi ashé’lenu lati nsoro Dai à minha língua o axé com que falar.
Nas orações e no sacrifício, o axé é invocado para garantir a eficácia do ato ou ritual:
Ashé tó, ashé bó, ashé bima! O axé é amplamente suficiente, o axé envolve tudo, o axé é nascido!
Ashé ishe’mi! Axé trabalhe para mim!
Ou para extrair a potência de uma erva usada para curar uma doença ou a alma:
Ashé’wé Osayín! Axé (nas) ervas de Osayín!
Ewé ayé! Ervas (da) Terra. [27]
Todos os participantes numa cerimônia lukumi contribuem com uma afirmação: Axé— que assim seja!
O axé de um orixá é especialmente ativo durante a possessão. A possessão é a derradeira forma de contato com o axé e é sua maior personificação no orixá. Do mesmo modo, o conselho dado por um orixá ou o remédio para uma moléstia em particular é dotado com axé, e sua eficácia é garantida pelo fato de o orixá em pessoa ter falado, trazendo a solução a uma crise pessoal. Este encontro pessoal, de um-a-um, entre o orun e o aiyê, entre os humanos e o sobrenatural, é outro aspecto estimado pela religião ioruba/lukumi. O devoto suplica e oferece sacrifício ao sobrenatural, e o domínio se faz acessível de uma maneira muito pessoal através da possessão. O sobrenatural descende ao reino dos seus devotos e desempenha um rol ativo com e dentro dele.
O mau uso do afudaxé pode ter efeitos deletérios para o axé, por ser poderoso nas maldições, especialmente quando elas resultam da injustiça ou da falta de respeito. A reverência dada aos alagbás ou mais velhos na Iorubalândia, bem como no Novo Mundo, repousa primeiramente no conceito de axé, pelo que se acredita que o axé também é adquirido e incrementado com a experiência e a sabedoria que acompanham a idade. Ofender propositadamente um alagbá, não é somente desrespeitoso, mas também extremamente perigoso pelo agravo que pode ter graves conseqüências.
Notas finais
[1] Mais recentemente chamada de “Santería,”, um nome equivocado, com conotações pejorativas.
[2] Me refiro às práticas e praticantes da religião ioruba tradicional como iorubá e uso lukumi, especificamente, para suas contrapartes em Cuba e na Diáspora Cubana.
[3] Awoniyi, Timothy. The Word Yoruba. Nigéria 134-35, 1981; pgs. 104-107.
[4] Vide Philip D. Curtin. The Transatlantic Slave Trade-A Census. Wisconsin: The University of Wisconsin Press, 1969.
[5] No Brasil, a religião dos nagôs ou iorubás é conhecida por Candomblé, um termo encontrado pelos nagôs quando chegaram originalmente utilizados pelos bantos para suas associações fraterno-religiosas. Vide Roger Bastide. The African Religions of Brazil. Baltimore: The Johns Hopkins University press, 1970.
[6] Vide Curtin, 1969; Robin Law. The Oyo Empire c. 1600-c. 1836: A West African Imperialism in the Era of the Atlantic Slave Trade. Oxford: Oxford University Press, 1977. Pierre Verger. Bahia and the West African Trade (1549-1851). Ibadan: Ibadan University Press, 1964.
[7] Para uma leitura adicional sobre as origens da religião lukumi em Cuba, vide Mercedes C. Sandoval. La Religión Afrocubana. Madrid: Playor, 1975; Isabel Castellanos & Jorge Castellanos. Cultura Afrocubana. 3 vols. Miami: Ediciones Universal, 1988. Para os E.E.U.U., vide Robert F. Thompson. Flash of the Spirit-African and Afro-American Art & Philosophy. New York: Vintage Books, 1984; Joseph M. Murphy. Santeria: An African Religion in America. Boston: Beacon Press, 1988.
[8] Pierre Verger tem argumentado convincentemente que o desenvolvimento da crença ioruba em Olorun como Ser Supremo é com toda probabilidade uma introdução forânea, possivelmente de origem islâmica ou cristã. De acordo com esta visão, o axé e a noção mais próxima de um Deus Criador que existiu na antiga Iorubalândia, antes do encontro com o Islã e o cristianismo. Vide The Yoruba High God-a Review of the Sources. Odu, no. 2, 1966; pgs. 19-40.
[9] Idowu, E. Bolaji. Olodumare: God in Yoruba Belief. Memorial Edition. New York: Wazobia, 1994; pgs. 72-73.
[10] Verger, op. Cit., p. 36.
[11] Thompson, Robert Farris. Flash of the Spirit-African & Afro-American Art & Philosophy. New York: Vintage Books, Inc., 1984; p. 5.
[12] Verger, op. Cit., p. 35.
[13] Drewal, Henry John e John Pemberton III. Yoruba- Nine Centuries of African Art and Thought. New York: The Center for African Art & Harry N. Abrams Inc.; 1989; p. 16.
[14] Hallgren, Roland. The Good Things in Life-A Study of the Traditional Religion and Culture of the Yoruba People. Lund; Plus Ultra, 1991; p. 32.
[15] Apter, Andrew. Black Critics and Kings-The Hermeneutics of Power in Yoruba Society. Chicago: The University of Chicago Press, 1992; pgs. 55, 84 & 105.
[16] Thompson Drewal, Margaret. Yoruba Ritual-Performers, Play, Agency. Bloomington: Indiana University Press, 1992, p. 27.
[17] Vide Castillo, José M. Ifá en Tierra de Ifá. Miami. 1976.
[18] Conversa pessoal com o teólogo católico Orlando Espin. Miami, June 4, 1999.
[19] Verger, op.cit., p. 36.
[20] Vide Beier, H.U. Obatala Festival. Nigéria, No. 49, 1954; pgs 10-28; p. 10.
[21]Thompson, p. 5; Thompson Drewal, p. 27.
[22] Karioxá, literalmente “colocar o orixá na cabeça”, é o nome para a ordenação ritual de um Olorixá lukumi. Parte deste ritual envolve colocar as representações materiais dos orixás e outros elementos secretos na cabeça do devoto. Estes elementos também são chamados de axé e representam a encarnação do conceito transcendente numa forma tangível.
[23] Literalmente “aquele ou aquela que possui um orixá”; sacerdotes/sacerdotisas.
[24] Vide Verger, op. Cit., pgs. 35 & 37.
[25] Literalmente “Pai do mistério”. Sacerdote de Orunmilá, divindade da adivinhação. Idealmente, os babalawôs devem estar altamente versados no conhecimento dos rituais, eis que uma das suas principais funções é consultar o oráculo para os devotos.
[26] O Oriaté é um tipo de mestre de cerimônias. Sua função é realizar todos os rituais para a ordenação de um Olorixá. Como tal, ele deve estar extremadamente bem instruído nas diferentes prescrições e proscrições associadas a cada orixá individual e aos rituais de consagração. Ele também consulta o oráculo no terceiro dia depois da cerimônia de ordenação. Portanto, o alcance deste conhecimento deve ser muito amplo, ou seu axé é questionado pela comunidade.
[27] Alguns deles mesmos se ordenam no sacerdócio.

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Axé
Kafungi

A Origem da palavra Iyàwó

Boa noite irmão e amigos,

Esta lenda, eu recebi de uma amiga e não tenho como confirmar, caso alguém a conheça ou possa indicar o livro que a relata, eu ficarei muito agradecida:


"
A palavra ìyàwó possui sua origem numa história conectada com Òrúnmìlà e sua
viagem a cidade de Ìwó, e que ora relatamos:

 “Certo dia, Òrúnmìlà desejou se personificar em um ser humano. Vestiu-se
com folhas de bananeira como se fosse um maltrapilho e se dirigiu à cidade
de Ìwó. Ali viu Oba em toda sua imponência, com seus assistentes e chefes,
pois era época de festa anual. Sentou-se em frente à casa do Oba e se serviu
das sobras de comida que jogavam fora. Ao ver isso, a Oba o entendeu como um
estranho e ordenou que servissem um prato de comida para ele. Mais tarde,
Òrúnmìlà disse ao Oba que queria dormir um pouco. A fim de se livrar do
estranho maltrapilho, o Oba ordenou a seus servidores que preparassem um
lugar para ele, com toda a roupa de cama salpicada com fiapos e sementes de
uma certa planta que provocava comichão. Òrúnmìlà dormiu sobre isto e,
quando acordou sentiu uma coceira pelo corpo, correu para o rio para se
banhar. De manhã cedo, foi até Oba e disse a ele que tinha tido um bom sono.
Em seguida, jogou Òpèlè, o rosário divinatório para Oba, e fez previsão para
ele, dizendo que teria um reinado longo e próspero. Novamente, Òrúnmìlà
continuou com seu comportamento estranho, comendo sobras de comida, mas
predizendo para as pessoas. No seu terceiro dia em Ìwó, a filha do Oba
começou a gostar de Òrúnmìlà, e decidiu se casar com ele. Todos ficaram
horrorizados, uma princesa se casar com o estranho maltrapilho. Mas ela
insistiu e o Oba teve de concordar, dividindo seus bens com Òrúnmìlà, em
forma de dote. Òrúnmìlà, então, foi viver fora da cidade com a princesa.
Ficou dono de muitos bens, passou a ter assistentes e muitos cavalos, devido
aos presentes que recebeu de Oba.
Assim, quando as pessoas perguntavam quem era sua esposa, Òrúnmìlà respondia
que era uma humilhação que sofreu em Ìwó. Ìyà significa humilhação, e Ìwó, o
nome da cidade onde sofreu humilhação. As duas palavras formam Ìya Ìwó, e
que veio a se tornar Ìyàwó. Desse momento em diante, os yorubá se referiam a
noiva de Òrúnmìlà como Ìyàwó, que, assim passou a ser a palavra que define
uma “Esposa.”

Axé

Kafungi

terça-feira, 21 de junho de 2011

O Oráculo

Bom dia meus irmãos e amigos

Para finalizar o artigo sobre o Oluô Agenor, transcrevo a página 25 a 27  do Livro Caminho de Odu, texto do próprio autor:

" O destino das pessoas e tudo o que existe podem ser desvendados por meio da consulta a Ofá, o oráculo, que se manifesta pelo jogo. Ifá tem seu culto específico e o mais alto cargo do culto de Ifá é o de oluô, título concedido a alguns babalaôs. Ifá é o orixá da adivinhação e para tudo ele deve ser consultado. Existem dois tipos de jogo: o do opelê-ifá e o jogo de búzios.

No jogo de búzios, mais comum, quem fala é Exu. São dezesseis búzios que podem ser jogados também pelos Babalorixás e Ialorixás. A consulta a Ifá é uma atividade exclusivamente masculina, mas as mulheres passaram a poder pegar nos búzios porque Oxum dez um trato com Exu, conseguindo dele permissão para jogar . (sobre este trato (lenda) você encontra no livro Igbadu - A cabaça da Existência de Adilson de Oxalá, que relacionei anteriormente)

Tanto o jogo de búzios como o do ipelê-Ifá baseiam-se num sistema matemático, em que se estabelecem 256 combinações resultantes da multiplicação dos 16 Odus usados no jogo de búzios por 16. Nada se faz sem que antes se consulte o oráculo. Quanto mais séria a questão a ser resolvida, maior a responsabilidade da pessoa que faz o jogo.

As obrigações do Odu, ou ano ritual, são muito importantes para uma casa. É dali que cada pessoa e a própria casa retiram a força necessária para continuar existindo. As oferendas representam uma troca constante de axé. Muitos detalhes precisam ser pensados para que os preceitos sejam cumpridos à risca. Por isso, antes do início do Odu, é indispensável que se faça um jogo para saber exatamente como devem ser realizadas as obrigações.

No Brasil,  o ano ritual varia muito de uma casa para outra, mas em todas elas as obrigações começam com as "Águas de Oxalá". Como nem sempre essa obrigação é feita no início do ano, é necessário que se faça anualmente o jogo para saber qual o Odu que irá reger o ano. A partir do conhecimento do Odu, o oluô prescreve os ebós necessários  às pessoas para que elas atravessem com sucesso o ano novo que se inicia. A partir do conhecimento dos Orixás que regem o ano, outros jogos são feitos para estabelecer as obrigações que a casa deve cumprir durante aquele ano: fica-se, então, sabendo como deverão ser homenageados os orixás, o que lhes será oferecido, quando, etc.

Além dos jogos feitos para a casa como um todo, são feitos também jogos individuais que indicam feituras, boris e toda a sorte de obrigações individuais que devem ser feitas para os filhos da casa. Uma vez estabelecido o calendário do ano, têm início as obrigações. As obrigações do Dum são compostas por momentos bem definidos.

A primeira parte de todas as obrigações se constitui de ritos preliminares, em que as pessoas e a casa são preparadas para a realização daquela obrigação. Antes do início de qualquer obrigação, todos os membros do egbé ´resentes tomam banhos com ervas adequadas à obrigação que irá se iniciar. O banho prepara o corpo. Sem tomar banho não se pode participar de nada. Esse é um dos muitos exemplos da importância de Ossaim, o dono das folhas. SEM FOLHA NADA SE FAZ.

A partir de então, tem início a obrigação propriamente dita, que se compõe de cinco partes: a matança, o padê, o ianlê, a festa e a entrega do carrego, tudo de acordo com o jogo feito para o Odu, assim como pelo jogo feito antes da realização de cada obrigação e mesmo para cata etapa de uma mesma obrigação."

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No final deste livro, página 184, podemos ler alguns Poemas do Oluô. O que eu mais gosto e já o conhecia é o seguinte:

O PÃO
Agenor Miranda

Era um pequeno pão branco, deixado
por descuido, talvez, numa soleira;
ou, talvez, algum gesto calculado
da mão que espalha o bem dessa maneira.

Passou um pobre velho. Ia arrimado
a um bordão. E tão grande era a canseira
que, exausto, foi cair junto à soleira,
onde jazia o pão abandonado...

Vendo-o, o pobre calor tomou-o;
E rápido em momentos devorou-o,
vencendo a fome com satisfação.

E o pão deixado ali, no esquecimento,
transformou-se na luz de um pensamento
e no perfume de uma gratidão.

(Novembro de 1997)


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Axé

Kafungi

segunda-feira, 20 de junho de 2011

HOMENAGEM AO OLUÔ

Boa noite irmãos e amigos

Professor Agenor Miranda Roca
Oluô


Tive o prazer de conhecer pessoalmente o Professor Agenor Miranda em 1979, pouco antes de minha obrigação de 14 anos. Fiquei quietinha, sentada no chão ao lado de Pai Geraldo e ouvindo a conversa dos dois. O Oluô entregou a Pai Geraldo vários papéis com suas anotações sobre o Oráculo de Ifá. Obviamente, eram cópias, muitas que eles distribuiu a todos que os procuravam. Nunca esquecerei seu rosto sereno, sua simpatia e do prazer que o mesmo sentia em falar sobre a Nação. Um homem simples e carismático.


Nos deixou no dia 17 de julho do ano de 2004,  com 96 anos de idade e uma vida cheia de alegria, sabedoria, ensinamentos e praticamente dedicada às divindades do panteão yoruba.  (Kafungi)

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Transcrição do Livro Caminhos de Odu de Agenor Miranda Rocha - Organização e Apresentação de Reginaldo Prandi. Texto abaixo de Reginaldo Pradi:

... O Professo Agenor, como é conhecido pelo povo-de-santo, nasceu em Luanda, Angola, filho de pais portugueses, em 8 de setembro de 1907. Quatro anos depois, sua família mudou-se para Salvador, Bahia, onde, no dia 12 de setembro de de 1912, aos cinco anos de idade, por motivos de saúde, em uma casa da Ladeira da Praça, foi iniciado no candomblé por Mãe Aninha, Ana Eugênia dos Santos, Oba Bií ... . Completou sua obrigação na lei-do-santo iniciando-se para Euá, seu segundo orixá, com Cipriano Abedê, no Rio de Janeiro, levado por sua mãe-de-santo...
Quando jovem, professor Agenor mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar Medicina, vindo a se formar em Letras, tendo se tornado professor do Colégio Pedro II, onde lecionou por quarenta e seis anos. Por sua mãe Aninha era chamado Odaguiã; pelo povo-de-santo foi chamado sempre de professor Agenor. Os mais íntimos chamavam-no de Santinho.
Filho de Olaxá, sempre ligado ao Axé Opô Afonjá, Agenor tem sido o responsável pela consulta oracular que regula a sucessão naquele terreiro, assim como na Casa Branca do Engenho, além de ocupar também o cargo importante no terreiro do Gantois. (...)
Em quase um século de vida, Professor Agenor conviveu com as mais importantes personalidades do candomblé (e com todos que os procuravam, por mais humildes que fossem) e com o Babalaô Martiniano Elisei do Bonfim (1859-1943), aprendeu os seggredos das folhas, tornando-se OLOSSAIM. Mas foi com sua mãe-de-santo que aprendeu o jogo de búzios, cujo corpo oracular, constituído dos Odus, cada um com seus caminhos, ebós, mitos e significados, transcreveu no caderno de 1928. (Caderno este que deu origem ao Livro citado acima,  organizado por Reginaldo Prandi e revisado pelo próprio Agenor Miranda).

(...) Muitas cópias desse caderno foram feitas e presenteadas a sacerdotes e sacerdotisas que recorreram ao Professor Agenor para o jogo de búzios, tanto para jogar com ele, quanto para aprender. Cópias que foram passadas para outros, repassadas e adulteradas (acredito por falta de conhecimento de expressões em yorubá, dando outro sentido ao texto original).

O Texto Caminhos de Odu publicado em 1999, reproduz fielmente o manuscrito original, com sua linguagem simples e saborosa. Disse-me o oluô que ele escrevia "da maneira como o antigo nagô falava". Cada Odu compõe-se de vários caminhos. Cada caminho divide-se em três partes: 1) ebó,
 2) mito, 3) interpretação do oráculo. É interessante que a lista dos ingredientes para a oferenda sempre é concluída com um "etc.". Disse o Professor que cabe ao olhador complementar a receita, juntando alguma pequena coisa adicional que possa ser necessária em função da ocasião, da gravidade do problema, das condições da pessoa para quem se joga e assim por diante. Disee ele: " A mãe ou pai-de-santo está com os búzios na mão, então joga e pergunta se é o caso de pôr mais alguma coisa. O olhador tem de ter sabedoria para desvendar o Odu completamente, porque nenhuma receita geral é assim completa. Cada caso é um caso.Em dois dos caminhos, a receita do ebó diz simplesmente : Tudo o que for necessário e indispensável para tal fim,"  num perfeito desafio ao olhador.

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Obs.1> Quando o livro Caminhos de Odu foi publicado, Professor Agenor estava entre nós.  No ano de 2004 ano não comemorei meu aniversário, por diversos motivos e entre eles a morte do OLUÔ querido, pois faço aniversário em 18 de Julho (ele faleceu no dia 17). Os grifos em vermelho são meus.

Obs.2.> Acredito que além dos estudos, da prática, do conhecimento das lendas e etc., o olhador deve ter o dom natural para a leitura dos búzios e entendimento dos odus. Não basta decorar caídas e lendas, é preciso mais...algo sutil, intuitivo e um coração de amor e caridade.


Axé
Kafungi

Oração dos Orixás

Bom dia meus irmãos e amigos.

Esta oração é de autoria de Léo de Oxaguiã e repasso para vocês. Acho muito bonita e poderosa.

"EXU, vós que sois orixá mensageiro dos orixás, intercedei por nós.
OGUN, vós que sois o Senhor das batalhas, dono da espada, corte todo mal que possa nos afligir e lute sempre por nós.
OXOSSI, dono das matas, das caças e da fartura, não permita que nada nos falta.
OMULU, senhor da terra e das doenças. Nos cure de todas as mazelas.
OSSÃE, Mestre das folhas, cura-me com tua sabedoria.
OXUMARÉ, senhor do arco-íris, traga-me a riqueza que existe entre o céu e a terra.
LOGUN-ODÉ, príncipe em todas as nações, proteja a minha família.
OXUM, senhora das águas correntes, do ouro e do amor. Mãe amorosa, olhai por nós e por nossos filhos.
YEMANJÁ, orixá mãe de orixá, dona das cabeças, ilumine nossa mente para o bom saber e olhai por nós.
INHASÃ, senhora dos ventos, afaste de nós as tempestades.
OBÁ, senhora guerreira, lute por nós.
EWA, senhora das vistas, nos mostre o caminho das estrelas e olhai por nós.
NANÃ, mãe de mãe, nos de sua bênção e nos ampare nos momentos dolorosos.
XANGÔ, senhor do raio e do trovão, nos faça justiça.
OXAGUIÃ, guerreiro branco e senhor da paz, proteja-nos de toda intriga e maldade.

OXALÁ PAI DA CRIAÇÃO, cubra-nos com seu ALÁ.

AXÉ.

Kafungi

domingo, 19 de junho de 2011

Bom Domingo - Invictus - Poema

Irmãos e amigos
Um bom domingo.


Li este poema que achei lindo e repasso a tradução para vocês.:


Título Original: "Invictus")
Autor: William E Henley
Tradutor: André C S Masini

Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.
Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.
Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.
Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

Axé
Kafungi